Madrid - Pamplona - Roncesvalles

Depois de um tempo de espera no aeroporto quando o fuso começa a fazer efeito e você fica brigando com o sono, com medo de perder o avião, meu voo para Pamplona foi chamado.

Lembro que entrei no avião e como sentei na janela, fiquei observando os funcionários colocarem as bagagens no compartimento de carga.

O avião era pequeno, já que era um voo doméstico curto e me lembro muito bem de ver a caixa da minha bicicleta ser embarcada. Fiquei mais tranquila nessa hora, pois tinha medo dela não chegar ao destino e comprometer todo o meu planejamento.

Como tinha dias contados, nada poderia sair do planejado, pois não teria tempo hábil para corrigir algum eventual problema de data.

Depois de 45 minutos de voo, aportei em Pamplona. Fui para a esteira pegar minha mochila, minha bike e depois esperaria o Zé Marcio, aquele cara que trabalhava na mesma empresa que eu, e que eu iria encontrar, pois o voo dele chegaria uma hora depois do meu.

Fato é que a esteira rodou, peguei minha mochila, todo mundo pegou suas bagagens e cadê a bike? Nada da caixa, nada dela, nada...

Me deu um vazio tão grande, que mesmo depois que todas as bagagens já tinham terminado e a esteira estava vazia, continuei ali parada, na esperança que em algum momento ela aparecesse, já que era grande e pesada, talvez tivessem deixado para o final.

A esteira parou e o funcionário que estava ali ao lado me perguntou se a bagagem não havia chegado. Diante da minha afirmativa, pediu que eu fosse até o balcão da empresa para reclamar.

Eu fui, mas confesso que parecia um autômato, já que na minha cabeça passou todo um filme do tempo que eu não teria, que eu não conseguiria fazer o Caminho sem a bike no tempo que eu dispunha, que a viagem estava comprometida e blá, blá, blá.

Chegando até o balcão, com o meu portunhol ainda se acostumando à velocidade com que eles falam, eu consegui dizer que minha bicicleta não havia chegado e que eu partiria no dia seguinte de Roncesvalles. A moça disse que eu não me preocupasse, pois no dia seguinte pela manhã, a minha bicicleta estaria no albergue.

Eu disse que nem havia dito aonde estaria e como é que ela sabia aonde entregar a bicicleta? Ela falou, já meio sem paciência, que a bicicleta estaria de manhã no albergue.

Resolvi não polemizar mais e já estava meio que dando a bike por perdida para fazer o Caminho. Sentei em uma das cadeiras e esperei pelo Zé Marcio. Logo depois ele chegou e me lembro que fui esperá-lo e o encontrei todo sorridente, evidentemente feliz com a viagem que estava começando.

Conversamos rapidamente, falei da bicicleta e como não havia o que fazer, fomos pegar o táxi que nos levaria até Roncesvalles. Fomos conversando como se fôssemos velhos conhecidos e 42 km depois estávamos no início da nossa peregrinação.

Fomos até a oficina do peregrino, fazer nossa inscrição, que é assinar um livro, registrar a entrada no albergue, carimbar a credencial e nos avisaram da missa em homenagem aos peregrinos que teria mais tarde.

Deixamos nossas mochilas no albergue em frente e só aí eu fui entender porque a moça do aeroporto ficou irritada quando eu disse que ela não sabia nem onde eu ficaria. Só havia um albergue no vilarejo e, portanto, não haveria risco de entregarem a bicicleta em algum lugar errado. De qualquer maneira, ela poderia ter sido um pouco mais gentil e explicado isso para uma peregrina de primeira viagem.

O albergue era uma imensa construção de pedra, um tanto austera, lotada de beliches em toda a sua extensão. Nunca tinha visto tantos beliches juntos e uma babel tão grande de tipos e idiomas. Já comecei a entender a questão desapego em relação a essa viagem. Deixamos nossas mochilas em uma das camas, estendendo o saco de dormir sobre ela, para dizer que estava ocupada e saímos para conhecer e começar a nos ambientar com o Caminho.

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Mais tarde fomos jantar e dividimos uma mesa com um italiano chamado Paolo e uma senhora da qual não recordo a nacionalidade. No Caminho a gente começa desde cedo a aprender a dividir. Dividir banheiros, mesas, comida, sentimentos, aprendizados...

Após o jantar, fomos à missa e foi bastante interessante ver tanta gente com cara de peregrino, com suas botas, roupas de trekking e mochilas, lotando a igreja. O padre saúda a todos, dizendo as nacionalidades dos peregrinos, informação vinda da nossa inscrição na oficina do peregrino. Foi emocionante já estar nesse ambiente tão peculiar e após o término, fomos para o albergue para tomar banho e dormir.

Chegando lá, cada um pegou suas coisas e estávamos conversando próximo ao beliche, quando passou um brasileiro e nos cumprimentou. Conversamos rapidamente e ele disse que estava com um amigo e que eram do Rio Grande do Sul.

Os banheiros eram separados (masculino e feminino) e após tomar banho, fui para o beliche. Conversei um pouco com o Zé e fomos dormir, por volta das 22h, que é quando o albergue fecha.

Pouco tempo depois, alguém bateu forte na porta de madeira, pedindo para abrir a porta. Ficou um tempo gritando lá fora e como eu estava próxima à entrada, resolvi abrir.

O cara me agradeceu e passou por mim correndo. Voltei para a minha cama e pouco depois, a mesma cena: alguém esmurrando a porta e gritando lá fora. Esperei um pouco para ver se alguém tomava alguma atitude e diante da inércia, levantei novamente, já um pouco irritada. Eu queria dormir, estava cansada.

Enfim, a movimentação terminou e eu consegui dormir um pouco. Digo um pouco, porque num ambiente com mais de 100 beliches lotados, todo o tipo de som é liberado. São roncos em todos os seus tons e estilos, tosses, espirros e outros sons. Meu sono é muito leve, então sofri bastante nessa primeira noite.

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