Cólera (6.000 m.) / Cume (6.962 m.)

O Carlos nos acordou às 3h para começarmos a nos arrumar, pois a ideia era sairmos às 4h30. Ele nos trouxe o café da manhã na barraca, pois estava muito frio lá fora, por volta dos -10 e tínhamos que poupar energia para o que faríamos a seguir.

Tomamos uma sopa quente com Polenguinho, comemos bolo com geleia e doce de pera. Café da manhã inusitado, mas precisávamos de energia. Mesmo sem fome, me obriguei a comer, pois já não havia jantado na noite anterior e o esforço seria muito, muito grande a partir de agora.

Depois do café, começamos a nos vestir: 1ª camada, calça fleece e anorak nas pernas e meia grossa para a bota dupla. 1ª camada, fleece e pluma no peito e braços, gorro, buff ou balaclava, lanterna de cabeça, luva fina, luva mitten.

Depois de toda essa parafernália, saímos para a madrugada fria. Carlos chamou a todos, nos pôs em fila indiana: Thaís, Caio, eu e os demais e começamos a caminhar e a subir em direção ao nosso objetivo, às 4h30, conforme combinado.

Obviamente estava um breu e fomos passo a passo subindo a montanha e enxergando só os nossos pés e o facho da lanterna da pessoa da frente.

Como estava muito frio, eu coloquei o buff no rosto cobrindo a boca e o nariz e em poucos minutos comecei a ter uma sensação de abafamento pela respiração que esquentava e me impedia de respirar normalmente. Não conseguia tirá-lo do rosto, pois é impossível fazer qualquer coisa com a luva mitten e comecei a ter um início de pânico, sem conseguir respirar. Não queria parar para não atrapalhar o grupo.

Mesmo andando, tirei a luva, tirei o buff, puxando-o para o pescoço e me concentrei para não pirar, pois a tarefa estava apenas começando e perder a estabilidade emocional só me prejudicaria e poderia impedir a ascensão normal.

Por isso sempre dizemos que montanha é 70% cabeça e 30% corpo. Se não estivermos muito concentrados, focados e tranquilos, podemos colocar tudo a perder, pois em condições tão adversas, é muito fácil nos desestruturarmos e é preciso muito controle emocional para vencer medos, frio intenso, escuro total, desconforto e ansiedade.

Seguimos caminhando e eu tinha a sensação de que os dedos dos pés estavam congelando, tamanho o frio que sentia.

Montanha acima e logo após chegarmos à Piedras Blancas o Caio disse que ia parar. O Carlos ainda tentou demovê-lo, mas ele estava decidido, disse que estava no seu limite e muito cansado. Tínhamos andado por volta de 1h30. Lamentamos e o Bernardo pediu que a Flor retornasse com ele ao acampamento.

Seguimos nosso difícil caminho, ladeira acima e eu me sentia muito cansada e sem fôlego. Parecia que o pouco ar que entrava, não era capaz de me saciar e sentia muita dificuldade em respirar. O peito não abria o suficiente e a sensação que dava é que estava tudo fechado.

Chegamos à Independência ainda no escuro e paramos para nos hidratar, comer algo e colocar os crampons nas botas, pois o trecho com pedras começaria.

Na parada o Carlos disse que a partir de agora quem não andasse, teria que voltar. Eu disse que estava exausta e ele reiterou de maneira mais dura: Ou você anda ou volta.

Eu disse: Não consigo andar mais rápido do que estava andando. Só consigo se for nesse passo.

Ele: Assim está bom, mas não pode parar.

Entendo que ele tenha que saber quando endurecer e quando afrouxar, pois é um grupo grande de pessoas, passando por situações difíceis e se desafiando o tempo todo e a responsabilidade de guiar todos, é dele. É ele quem dá o ritmo, quem incentiva, quem tenta convencer os que querem desistir e vai levando a caravana rumo ao cume.

Confesso que fiquei com medo de não conseguir e atrapalhar o grupo, mas não desistiria assim tão fácil. Na parada, a Thaís reclamou de frio nos pés e eu também sentia o mesmo, além de ter as mãos duras e geladas. O Carlos disse que a partir de agora seria assim mesmo e disse para movimentarmos os dedos o tempo todo. Disse que enquanto sentimos dor, é bom, mas seria preocupante se parássemos de sentir dor ou os dedos.

Continuamos nossa marcha e pouco tempo depois, foi a hora do Antônio desistir e pedir para parar. Nessa altura, com o frio intenso e o dia já amanhecendo, não tínhamos muito tempo para ficar discutindo. Carlos falou com os outros guias e decidiu que o Antônio desceria com a Flor, que já havia retornado, depois de deixar o Caio no acampamento. Definitivamente, essas pessoas são muito fortes.

Começamos a entrar no Gran Carreo, que é um trecho muito, muito difícil, íngreme e com um vento forte. O vento batia lateralmente e entrava pelos óculos, direto nos olhos. Fiquei com muito medo de ter um congelamento e puxava o capuz da pluma para cobrir o rosto o tempo todo. Andava com um bastão em uma das mãos e com a outra cobria o rosto com o capuz.

Esse trecho cheio de areia e pedra que fazem as botas com crampon escorregarem o tempo todo, é extremamente íngreme e tão cansativo, que tinha vontade de parar, sentar e não levantar mais. Tinha a sensação de estar andando por inércia, sem pensar, tamanho o cansaço. Eu olhava para cima e o caminho parecia não ter fim.

A essa altura pedi para ficar atrás do Carlos, pois fico mais tranquila seguindo os passos e a respiração dele. Confesso que estava tão concentrada na tarefa de subir e seguir seu ritmo, que nem olhei para trás para ver os outros na fila. Só me dava conta do cansaço extremo em que todos estavam, quando parávamos para nos hidratar, comer, tomar gel.

Todas as vezes em que parávamos, eu perguntava ao Carlos onde estava a Thaís, pois não conseguia vê-la mais na fila. Ele respondia que ela estava vindo atrás com o Du.

Parávamos a cada 1h e quando já estávamos andando e subindo há quase 8h, eu sentei numa pedra, respirei fundo e disse que estava exausta. O Bernardo então virou para mim e disse: Estamos chegando na Cueva, Sabrina. Quando você chegar lá, pode descansar e descer para o acampamento.

Me deu uma raiva tão grande ele dizer isso e duvidar de mim depois de tudo o que eu já havia feito, que eu gritei com ele. Disse: Eu não vou descer, Bernardo. Eu só estou cansada e quero descansar, mas não vou descer. Levantei e saí andando.

Depois o Lucas Ferreira me disse que eu o inspirei nesse momento, porque ele viu que eu estava exausta e mesmo assim não desistiria. O Filipe disse que naquele instante sabia que eu faria o cume.

Continuamos todos extremamente cansados. Você coloca um pé e escorrega, você força a perna e escorrega novamente e tem que seguir fazendo muito mais força do que o normal para subir as pedras, pois o terreno é extremamente escorregadio. Tudo isso numa altitude cruel. É extenuante.

A gente olhava o cume e ele estava tão distante e já estávamos tão no limite...

Seguimos lentamente até chegar à La Cueva e paramos para descansar por volta de 40 minutos. Thaís tinha ficado distante com o Du e não conseguia mais vê-la de onde estávamos.

Nos sentamos exaustos e aí comecei a observar as outras pessoas do grupo: o André, que é atleta e super forte, estava exausto. Ilan, mal falava, Márcio estava entregue e andava de maneira descoordenada. Lucas e Filipe Ferreira com os rostos muito cansados, Marcos estava cansado, mas bem. Quando estava sentada, olhei para baixo e vi o Felber parado num ponto do Gran Carreo, sentado numa pedra, com aspecto de quem tinha desistido de subir, acompanhado pelo Lucas Sato.

Nesse momento o Carlos desceu e foi encontrá-lo. Conseguiu convencê-lo e em pouco tempo ele chegou extenuado, acompanhado pelo Lucas Sato, que resfolegava. Apesar de exausto, tinha decidido tentar novamente e não desistir como há poucos minutos atrás.

O Carlos tem o dom de tirar nossas últimas forças e energia e nos faz cumprir o que nos propomos.

Depois de descansarmos, seguimos rumo à temível Canaleta, que é um longo e dificílimo aclive todo em neve e temos que fincar os bastões e crampons para conseguir subir. O Márcio já não conseguia coordenar as pernas e passou a subir encordado e puxado pelo Carlos. Estava em um estado lastimável.

Perguntei ao Carlos pela Thaís e ele me disse que ela não subiria mais. Fiquei muito triste, pois havíamos feito muitos planos de chegarmos juntas, de nos ajudar nos últimos metros e com certeza choraríamos abraçadas. Coisa que tínhamos feito em cada campo alto onde havíamos chegado. Éramos sempre as primeiras a nos abraçar.

A Canaleta é um trecho extremamente cansativo e seguíamos a passos lentíssimos, vencendo cada pedra e subindo extenuados em uma fila indiana de zumbis.

O Lucas Ferreira escorregou numa pedra e quase levou um tombo feio, mas conseguiu se equilibrar. O Filipe levou dois escorregões e chegou a cair, preocupando o Lucas que vinha logo atrás.

Bernardo nos guiava lá na frente, o Carlos puxava o Márcio pela corda, lá atrás, e o restante subia quase se arrastando. Subíamos um pouco e parávamos para respirar e descansar o tempo todo.

Logo depois da parte com neve, chega o lance final em pedra, que faz um zigue-zague até chegar ao cume. É tanto esforço, que falta ar o tempo todo.

Então, depois de mais de 12h de exercício físico sobre humano, depois de vencermos quase 1.000 m. de desnível, por volta das 16h30, chegamos ao cume do Aconcágua (6.962 m.). Cheguei e deitei no chão para respirar e não cair, já que fiquei completamente zonza quando me abaixei.

Fiquei deitada um tempo, tendo o Marcos, o Lucas Sato, o Felber e o Márcio ao lado, também deitados. O Lucas Ferreira chegou e vomitou e teve que ficar um tempo sentado para se recuperar. Aos poucos fomos melhorando e cada um levantando e caminhando pelo cume, tirando fotos, todos se abraçando e confraternizando, admirando a quase impossível face sul do Aconcágua e percebendo a grande conquista que acabávamos de conseguir.

Quem chegou ao cume foi o Marcos, Márcio, André, Lucas e Filipe Ferreira, Felber, Carlos, Lucas Sato, Ilan, Bernardo e eu. Estávamos exaustos, mas exultantes com mais um cume, no topo do Sentinela de Pedra.

A montanha foi perfeita e nos recebeu com um dia lindo, claro, pouco vento e sol.

Ficamos uns 40 minutos curtindo nossa conquista, mas como todo montanhista sabe, o cume é somente a metade do caminho e agora tínhamos todo o difícil retorno para fazer e descer.

Bernardo foi abrindo caminho e começamos a descer as pedras com os crampons. Descemos o primeiro trecho de pedra, escorregando e tropeçando muitas vezes, até chegarmos à Canaleta com neve. Descíamos e eu queria parar a todo o instante porque estava exausta. Ia parando nas pedras e o Bernardo dizendo que tínhamos que descer.

Descemos e eu, o Marcos e o Bernardo fomos os primeiros a chegar à Cueva, onde havíamos deixado nossas mochilas para subirmos mais leves e descansar. Ficamos observando os outros chegarem e um vinha pior que o outro. André veio logo atrás, sentou e dormiu instantaneamente; Márcio continuava encordado e praticamente desabou no chão; Felber não conseguia descer uma parte, travou e quando foi sair, levou um tombo; Lucas Ferreira disse que não queria descer do cume e que ia ficar lá, pois estava cansado. Cada um lidando com a exaustão de uma maneira diferente.

Descansamos uns 30 minutos e o Carlos nos mandou continuar. Ele resolveu ficar para trás, para acompanhar o Lucas e o Filipe Ferreira que estavam muito cansados. O Bernardo ficou puxando o Márcio pela corda, seguido pelo Ilan e eu e o Marcos pedimos para seguir na frente para adiantar. Ainda tínhamos um longuíssimo caminho pela frente. André tirou forças não sei de onde e foi nos seguindo de perto.

A partir desse momento, paramos muito pouco, ganhamos distância e fomos seguindo montanha abaixo com ganas de chegar e poder descansar. Seguíamos, andávamos, escorregávamos e o tempo ia passando, passando e nada de chegar.

Em determinado ponto éramos só eu, o Marcos e o André e já não víamos os outros. O André às vezes escorregava atrás de mim, caía e dormia automaticamente. Numa das vezes tive que chamá-lo para levantar.

Para quem não tem familiaridade com o montanhismo, pode parecer loucura uma coisa dessas acontecer, mas o nível de exaustão física é tão intenso, que alguém pode cair e dormir no mesmo instante, por mais estranho que possa parecer. Por isso muitos acidentes acontecem e sempre temos que ter outras pessoas que olhem por nós. Acho loucura alguém tentar fazer uma montanha solo, mas existem malucos que fazem.

Continuamos descendo e em um ponto do caminho começou um vento tão forte, que gelava tudo e dificultava ainda mais a tarefa. As horas passando, o tempo esfriando e nem sinal do acampamento.

Em um momento estava muito frio e eu estava muito cansada e falei para pararmos um pouco. Nos abrigamos atrás de uma espécie de depósito, uma casinha de madeira, sentamos na neve e esperamos o vento diminuir um pouco. Sentamos os três (eu, Marcos e André) muito próximos para tentar nos aquecer e novamente o André dormiu. Ficamos um tempo e esperamos o Bernardo, o Márcio e o Ilan chegarem.

Deixamos o abrigo para eles quando chegaram e seguimos. O bigode do André estava congelado, com gelo pingando, tamanho o frio. O vento foi dando uma trégua e seguimos já com o dia terminando e a noite chegando de mansinho.

Estávamos no limite, mas a paisagem era linda. Já avistávamos o acampamento lá embaixo, ainda longe. A pirâmide do Aconcágua se desenhava no horizonte ao nosso lado e a estrutura meio lunar nos acompanhando por todo o tempo. Essa imagem da pirâmide é um clássico, mas estava tão cansada, que não consegui nem pegar a câmera para tirar foto. Essa maravilha vai ficar guardada só na minha cabeça e nas minhas lembranças.

Eu, o Marcos e André fomos os primeiros a chegar ao acampamento por volta das 21h15, já com noite alta e fomos recebidos pela Flor. Nos abraçamos e cada um foi direto para sua barraca, exausto.

Cheguei, fui recebida com um abraço pela Thaís na barraca, conversamos um tempo, ela me contou porque tinha decidido voltar e eu contei sobre a galera no cume. A Flor voltou, tirou os crampons da minha bota, porque eu estava sem forças, trouxe água quente e uma sopinha de saquinho para eu tomar, mas não desceu. Nesse dia insano e intenso, eu tinha tomado 1 gel e comido 2 barras de cereais e só. Ainda fui ao banheiro e no caminho de volta encontrei o Ilan. Voltei para a barraca, tirei as botas e fui dormir.

Depois de mais de 17 horas de exercício físico, eu merecia um saco de dormir e algumas horas de sono.

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