Laguna Chiarkota (4.650 m.) / Cume do Tarija (5.250 m.)

Não consegui pregar os olhos mais uma vez, pois aos roncos absurdos, juntou-se a expectativa pré-cume, onde ansiedade, preocupação e excitação se juntam num coquetel maluco que impede o sono.

Olhava no relógio o tempo todo e a proximidade com o horário de levantar só fazia piorar a angústia. O Gustavo e o Giuseppe, que haviam feito o treinamento no glaciar, já haviam dito que não iam tentar o cume. Então, dos 7 clientes, só ficaram 3, contando comigo. Eu sempre acho chato quando as pessoas vão desistindo, porque vai dando uma desanimada no grupo.

Enfim, quando o despertador do Eliseu (guia boliviano) tocou, eu já estava acordada, ou melhor, nem tinha dormido. Nós 4 levantamos, o Giuseppe também e acabou ficando conosco até o horário da saída.

Começamos a nos equipar, vestir cadeirinha, botas duplas, todas as camadas de roupa, tomamos um rápido café da manhã e à 1h10 já estávamos do lado de fora do refúgio, prontos para começar a jornada.

Fomos brindados com uma noite linda, como aliás tinham sido todas, um céu esplendoroso e sem muito frio. Começamos a caminhar por volta da 1h15 e chegamos bem mais rápido ao glaciar do que no dia anterior, quando fomos treinar.

Paramos uma vez para descansar e chegando ao glaciar fomos colocar os crampons, capacete e nos encordar para começar a subida. Nessa parada comecei a sentir bastante frio e acabei colocando o casaco de pluma. Estava bem agasalhada.

Foram feitas 2 cordadas: em uma delas estavam o Léo (guia boliviano), o Kauê e o Kenedy e na outra, o Eliseu (guia boliviano), eu e o Antônio.

Saímos no passinho de montanha e começamos a subir. Sobe, sobe, sobe, um pé na frente do outro, cuidado com o crampon, passadas mais largas e a montanha ia ficando cada vez mais empinada.

Eu ia seguindo, um pé na frente do outro, concentrada, tentando não atrapalhar a caminhada, mas evidentemente era a mais lenta da cordada, afinal estava com 2 guias super fortes.

Dava umas paradas para tentar estabilizar a respiração, mas estava cansada e seguia lentamente montanha acima.

Em muitos momentos evitava olhar o que ainda tinha que subir e me concentrava apenas no próximo passo que tinha que dar e na corda à minha frente, olhando fixamente o gelo que se estendia sob meus pés.

Andava com a lanterna desligada porque a noite estava tão clara, o céu tão lindo, estrelado e com uma lua imensa, que nem era tão necessária a lanterna. Além do mais, a lanterna do guia à frente, ajudava também.

Em determinado momento, lá pelas 5h disse que precisava parar para comer e beber algo, pois estava me sentindo fraca. Subimos até um platô, mas parecia que meus pés não me obedeciam, sentei na neve, comi uma barra de proteína, tomei um gel de carboidrato e descansamos um pouco. Como minha água tinha congelado, tomei um pouco da que o Kauê me deu, levantamos, porque a minha bunda já estava congelando também e seguimos.

Continuamos a subir e em um ponto passamos por uma espécie de “ponte de neve” sobre uma greta muito grande. Havia gretas imensas, enormes fendas no gelo que eram lindas, mas assustadoras.

Por volta das 6h o dia começou a clarear e um laranja lindo tingia o azul escuro do céu. Sempre me sinto melhor quando o dia clareia. Parece que ganho força extra e saber que já estávamos perto do cume, também dava um gás maior.

A parte final para chegar ao cume é bastante interessante. É uma aresta de neve, com um precipício de cada lado, e temos que focar na corda e não nos distrair. Eu não tenho problema com altura e é um pouco tenso, mas foi uma superação enorme para o Kenedy, que tem fobia de altura e para o Kauê que também tem medo.

Logo após essa subida, chega-se ao cume, que é bastante pequeno. Uma formação toda em pedra, ladeada pelo Pequeno Alpamayo e demais montanhas. Chegamos às 7h e ficamos todos meio amontoados, fazendo fotos e vídeos, muito emocionados. Kenedy ficou em silêncio um tempo e imagino que estivesse “digerindo” a subida que tinha acabado de vencer.

Chegar ao cume é sempre a coroação de horas de subida íngreme, muito desgaste, concentração e determinação. É sempre uma festa para os sentidos ver tudo o que fizemos para estar lá, absorver toda a beleza ao redor e se regozijar com o gosto tão gostoso da conquista pessoal.

Olhei o Pequeno Alpamayo à minha frente e confesso que gelei ao ver a subida imensa que tinha para chegar ao cume. Conversei com o Antônio, mas ele achou melhor nem tentarmos, pois levaríamos ao menos mais 3 horas para subir e depois teríamos toda a descida até o acampamento. Ainda iríamos para La Paz hoje e não teríamos tempo hábil para voltar e pegar a van às 13h em Rinconada.

Fiquei um tempão admirando essa montanha linda e imaginando se voltaria uma outra vez para tentar escalar. Por ora não poderia fazer e me satisfiz “decorando e absorvendo” suas curvas e contornos.

Após um bom tempo, resolvemos descer. A descida da aresta também foi complicada para os meninos e o Kenedy desceu de costas, para não olhar o precipício à frente.

Fomos descendo, vendo o dia colorindo as montanhas à nossa frente, o enorme glaciar e tudo bem pequeno lá de cima. Chegamos ao final do glaciar, tiramos todos os equipamentos e ainda tínhamos a trilha até o refúgio.

Fomos andando, conversando, nos felicitando pela conquista e por volta das 10h50 chegamos de volta ao refúgio. Fomos recebidos com festa pelos meninos e pela Lidu, que estavam bastante felizes pela nossa experiência.

Chegamos e já fomos guardar tudo, arrumar as bagagens, pois íamos almoçar e já partir para pegar a van em Rinconada, o que significava mais 1 hora de trekking, pelo menos.

Almoçamos e já partimos. Voltamos pelo caminho lindo das lagoas e montanhas e íamos fotografando tudo, agora de um novo prisma. Depois de mais ou menos 1h20, todos chegaram até onde estava a van e depois de arrumar tudo, partimos para La Paz.

Levamos mais ou menos umas 3 horas até La Paz e chegando lá, pegamos um engarrafamento enorme na cidade, o que nos atrasou e acabamos chegando por volta de umas 19h no hotel. Descarregamos tudo, subimos e só deixamos nos quartos e já descemos para comer. Estávamos famintos.

Fomos à uma pizzaria ao lado do hotel e comemos feito loucos, pegando as pizzas com as mãos, enquanto a garçonete não trazia os pratos. Depois de 3 longos dias sem celular, tecnologia, whatsApp, etc, todos estavam enlouquecidos com os celulares. Digitando e comendo...

Eu já estou acostumada e já fiquei bem mais tempo do que isso sem acesso a nada de informação, mas entendo que é bastante difícil para quem nunca teve essa experiência. Parece que estamos fora do mundo.

O Antônio foi devolver os materiais e levou um tempo. Acabou não conseguindo nos acompanhar na pizza. Voltamos ao hotel e fomos, enfim, tomar um bom banho e descansar. Dormir em um quarto silencioso e uma cama gostosa depois de 3 dias de roncos e colchão mole que dava dor nas costas, não tem preço...

Foi um dia bastante longo para nós que subimos ao cume, pois estávamos praticamente a 24 horas em movimento. Descanso mais do que merecido.

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